O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Fidelity - Uma homenagem a Marguerite Porete




Quem sabe se a Regina Spektor não será uma reencarnação da Marguerite Porete?

Não consegui ler o livro de Porete, O Livro das Almas Simples que são Aniquiladas e Permanecem Apenas no Desejo e Vontade de Amar porque não o encontrei (alguém tem que possa emprestar?). Mas li o comentário do Paulo que está aqui e mais umas coisas, e gostei tanto que achei por bem fazer uma comparação com esta cantora que me apaixona, a Regina!

As músicas da Regina em geral exprimem uma grande liberdade, o puro prazer de cantar! Nesta, por exemplo, ela começa por dizer que "nunca amou ninguém inteiramente", pois tinha sempre "um pé no chão", e no entanto a música invadiu-a, inundou-a, até "lhe partir o coração".

Esta coisa de partir o coração tem muito que se lhe diga... Afinal o que é o coração senão a energia, as energias que vêm dos quatro cantos e mais alguns, mas que se articulam num todo mais ou menos harmonioso, com um fim específico? Se bem que o Coração permita a sobrevivência do ser como individualidade, como caminho, como projecto, não deixa de ser verdade que essa canalização de energias as leva a mostrarem-se sempre de uma certa maneira, a serem aproveitadas sempre para um certo fim. Não são elas por elas, são elas em virtude de dar jeito aparecerem assim ou assado ao coração, ao caminho. Se eu sou alegre tentarei sempre recusar as energias tristes ou transmutá-las em alegria, se sou triste tentarei transmutar a alegria em tristeza e por aí diante.

Mas, quando a música "breaks my heart", quando a inefável energia é tanta, tão hiperabundante que me parte o coração, então a vida deixa de ser a preto e branco. Não quero estar triste, nem contente. Quero estar, como estiver, como me der na telha, deixar fluir. Da mesma maneira, "o outro" deixa de ser um mero instrumento para o meu caminho. Quando acaba o coração, a sua cara aparece, verdadeira, transparente, indizível... pois as energias (em forma material ou não) passam a ser apenas o que são.

E o coração parte-se, em milhares de cores, em míriades de sabores, em biliões de contemplações, sem entrada, sem saída... "and it breaks my heart!!"

And it Breaks my Heart!!
^_^

(deixemos cair o coração!!)


1 comentário:

Não há pachorra para a Anaïs Nin disse...

"- How are you? Are you an angel or a demon? From which heights of Heaven or depths of hell did you come to haunt me?

- It's up to you to find out ..."