O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

A Palavra e a Existência

A Palavra e a Existência

Vivemos (n)uma Existência codificada,
a Palavra sonha uma Visão comum, esclarecida,
um Entendimento.
Mas o que há é um Encontro de consciências,
Encontro de luzes e olhares, transparências
que revelam, tal como a chama da vela,
as sombras do que quisermos chamar Realidade.

A sombra é o código.
A percepção da sombra é a mensagem.
A interpretação é o Abraço sentido dos que se Encontram. Ao usar da Palavra.

4 comentários:

Anónimo disse...

Ai ! Encontros pela interpretação e pela palavra... Ideias tão bonitas... e tão ilusórias... Toda a história da cultura e do mundo o demonstra...

Luar Azul disse...

Muito Querida Luíza!! ^_^

Aqui, no meio da confusão, podemos falar à vontade sem que ninguém nos ouça! Como num café em que todos estão, por um momento, atentos às torradas; olhemos então esses Olhos nos olhos e vejamos o que têm para nos Dizer, esse Oráculo para lá do Destino!! ^_^

No Universo cada coisa está Ligada com Tudo. Interpretá-la ou "encontrá-la" é tão só integrá-la nesse Todo, encontrar o seu Lugar e Sentido profundo, tanto na História Infinita de tudo, como no sentido inefável do Nada que a sustém.

Esta dupla integração, vê se estás de acordo comigo, é a interpretação, e quando o fazemos Inteiramente - a ponte entre a sombra, a luz e o que as provoca - encontramos o Mestre, quer seja na pedra, no focinho de um orangotango, nas pedras longíquas de Marte, não interessa, pois elas foram apenas porta para o Infinito indizível que, de alguma forma impossível, guardamos fechado/aberto dentro de nós...

Ora isto aplica-se também a objectos não visíveis, como electrões, pensamentos, sensações, emoções, buracos negros e singularidades, etc...

Tudo sombras que transportam promessas de infinto a uma consciência translúcida.

Depachámos a interpretação e o seu objecto infinito, agora debrucemo-nos sobre a Palavra... onde é que entra a Palavra? No plano da história do nosso Planeta a invenção da palavra, parece-me, virá a ter um papel tão revolucionário como a da fotossíntese há biliões de anos atrás: levará como ela a uma explosão de vida, ao aparecimento de muitas novas espécies (das quais a humana será precursora ou pelo menos temporalmente anterior) cujo enraizamento no Mundo estará dependente da partilha alargada de interpretações entre muitos biliões de indivíduos. Formas de sistematizar, articular e integrar essas interpretações terão de ser encontradas de modo a poderem reproduzir-se nas mentes de indivíduos futuros de forma mais ou menos conscientemente desejada por eles. A nossa própria espécie já descobriu isso na palavra escrita que hoje tem lugar de honra em escolas para "educar" mesmo os mais jovens. Foi a possibilidade de partilhar interpretações de muitos milhões de pessoas ao longo de milénios que permite a civilização em que hoje (por enquanto) vivemos.

A Palavra é assim uma maneira de partilhar interpretações, mundos interiores que estabelecem integrações dessas sombras em significados cada vez mais profundos. Actualmente a nossa civilização procura potenciar a descoberta de novas interpretações, sobretudo ao nível da ciência e da tecnologia, distinguindo o que funciona bem (o que se sabe) do que ainda precisa de ser "investigado" e "alocando" mentes frescas à procura de novas interpretações em falta. O mesmo acontece na poesia ou na filosofia, embora em menor grau e de forma quase assistemática. Num futuro próximo (digamos dezenas de milhar de anos) deveremos observar um ênfase maior na articulação do que já se sabe, por exemplo nas interligações entre arte, ciência e mística, mas isso é o que podemos hoje imaginar e só na altura se saberá.

As palavras, no entanto, não são boas para tudo. Aquilo que é simples de ser comunicado entre cães, golfinhos, pinguins e todo o tipo de animais, ou seja, emoções, estados de espírito, passam quase invisíveis, intocadas pelas palavras. Por exemplo, quantos tipos diferentes há de Alegria? Se digo que uma pessoa é assertiva, que tipo de assertiva? Quando estamos com alguém, fisicamente, quando a olhamos nos olhos, compreendemos imediatamente que tipo de assertividade, os sonhos, a musicalidade, a suavidade, e muitas outras coisas. Coisas que milhares nem chegariam sequer a aflorar. Por isso se diz por vezes que uma imagem mais vale que mil palavras. O mesmo com a música. Tentemos compreender pela descrição verbal de um amigo uma melodia de Mozart! Não dá, terá de a trautear, não há outra maneira. Da mesma maneira a beleza de uma pedra ou de um pôr do sol é intransponível para palavras. Infelizmente as civilizações simbólicas terão um pendor para "esquecer" ou até negar a existência destas realidades indizíveis à medida que se concentram cada vez mais na Palavra reduzindo a sua consciência do mundo ao que nela pode ser encerrado.

Por isso, apesar de aos humanos a linguagem simbólica ter dado uma imensa capacidade técnica, e uma imensa diversidade de posições filosóficas e até amorosas (modos de lidar com as emoções), deixou-nos mais insensíveis ao que não é verbalizável, chegando mesmo a duvidar da existência do que não pode ser dito (incluindo a própria consciência, veja-se a filosofia anglo-saxónica actual). Para além disso as palavras metem-se no meio dos amantes, e de tudo o que temos o ensejo de transmitir apesar de inefável. O brilho dos olhos, neste caso, é muito mais sonoro...

É de esperar que o problema se agrave nos próximos milhares de anos à medida que a conceptualidade ganha terreno. Mas talvez se descubram tradutores instantâneos que, ligados ao cérebro, permitam uma partilha ainda mais clara e inequívoca do inefável. Nesse caso seria de supor que as guerras terminassem rapidamente, pois, reconhecendo-nos todos iguais no interior (ou para lá) dos nossos cérebros, teríamos mais facilidade em magoar a nós próprios (é mais perto) do que a outrem.

Enfim, perco-me em futilidades... ^_^ (como é costume ^_^)

Falei-te então da mesma Palavra, da mesma Interpretação, das mesmas Sombras, com as minhas palavras, baseado nas minhas sombras, achas que há ainda tempo para "falar" do Abraço?!

Talvez não, talvez seja melhor dá-lo Mesmo, neste café cheio de gente ninguém o verá, e estaremos descansados, olhos nos Olhos, contemplando tudo como se fosse a primeira vez!! ^_^

^_^

Luiza Dunas disse...

Querido Luar, é magnifíca a tua pintura, deixa-me tonta o cheiro da tinta que ainda me é fresca e estou muito perto. Deixa-me afastar um pouco, como quem se afasta do sopé da montanha para melhor a contemplar.

Luiza Dunas disse...

Luar,

Ontem não te falei de um pormenor extremamente importante ao ler-te:
Gostei desse convite íntimo num lugar público, fizeste-me olhar para ti a sorrir, também pela imagem do café e das torradas, a confusão e o cheiro do pão quente, o aroma açucarado da pastelaria, e o tinir das chávenas. É muito raro ir a Cafés e soube-me bem estar nesse onde estavas (também vejo na Serpente um espaço íntimo, que é por onde eu entro, de outra forma não a suportaria). E mantive-me a sorrir enquanto te ouvia dissertar. E hoje vim ler novamente só o primeiro parágrafo, e é espantoso.

Um beijinho...