O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Carmina Burana (Carl Orff)

Manuelinho, tu e que trouxeste o assunto a baila;-).

14. In taberna quando sumus (When we are in the tavern)

In taberna quando sumus When we are in the tavern,
non curamus quid sit humus, we do not think how we will go to dust,
sed ad ludum properamus, but we hurry to gamble,
cui semper insudamus. which always makes us sweat.
Quid agatur in taberna What happens in the tavern,
ubi nummus est pincerna, where money is host,
hoc est opus ut queratur, you may well ask,
si quid loquar, audiatur. and hear what I say.

Quidam ludunt, quidam bibunt, Some gamble, some drink,
quidam indiscrete vivunt. some behave loosely.
Sed in ludo qui morantur, But of those who gamble,
ex his quidam denudantur some are stripped bare,
quidam ibi vestiuntur, some win their clothes here,
quidam saccis induuntur. some are dressed in sacks.
Ibi nullus timet mortem Here no-one fears death,
sed pro Baccho mittunt sortem: but they throw the dice in the name of Bacchus.

Primo pro nummata vini, First of all it is to the wine-merchant
ex hac bibunt libertini; that the libertines drink,
semel bibunt pro captivis, one for the prisoners,
post hec bibunt ter pro vivis, three for the living,
quater pro Christianis cunctis four for all Christians,
quinquies pro fidelibus defunctis, five for the faithful dead,
sexies pro sororibus vanis, six for the loose sisters,
septies pro militibus silvanis. seven for the footpads in the wood,

Octies pro fratribus perversis, Eight for the errant brethren,
nonies pro monachis dispersis, nine for the dispersed monks,
decies pro navigantibus ten for the seamen,
undecies pro discordaniibus, eleven for the squabblers,
duodecies pro penitentibus, twelve for the penitent,
tredecies pro iter agentibus. thirteen for the wayfarers.
Tam pro papa quam pro rege To the Pope as to the king
bibunt omnes sine lege. they all drink without restraint.

Bibit hera, bibit herus, The mistress drinks, the master drinks,
bibit miles, bibit clerus, the soldier drinks, the priest drinks,
bibit ille, bibit illa, the man drinks, the woman drinks,
bibit servis cum ancilla, the servant drinks with the maid,
bibit velox, bibit piger, the swift man drinks, the lazy man drinks,
bibit albus, bibit niger, the white man drinks, the black man drinks,
bibit constans, bibit vagus, the settled man drinks, the wanderer drinks,
bibit rudis, bibit magnus. the stupid man drinks, the wise man drinks,

Bibit pauper et egrotus, The poor man drinks, the sick man drinks,
bibit exul et ignotus, the exile drinks, and the stranger,
bibit puer, bibit canus, the boy drinks, the old man drinks,
bibit presul et decanus, the bishop drinks, and the deacon,
bibit soror, bibit frater, the sister drinks, the brother drinks,
bibit anus, bibit mater, the old lady drinks, the mother drinks,
bibit ista, bibit ille, this man drinks, that man drinks,
bibunt centum, bibunt mille. a hundred drink, a thousand drink.

Parum sexcente nummate Six hundred pennies would hardly
durant, cum immoderate suffice, if everyone
bibunt omnes sine meta. drinks immoderately and immeasurably.
Quamvis bibant mente leta, However much they cheerfully drink
sic nos rodunt omnes gentes we are the ones whom everyone scolds,
et sic erimus egentes. and thus we are destitute.
Qui nos rodunt confundantur May those who slander us be cursed
et cum iustis non scribantur. and may their names not be written in the book
of the righteous.

11 comentários:

Sempre Obscuro disse...

Canção de beber para todos vós, mesmo para o invejoso do "Manuelinho"

Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.
Colhe rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?
Mas colhe rosas. Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver?"
F. Pessoa

Ana Margarida Esteves disse...

Sempre obscuro? Entao nao estavas em vias de te desobscurecer;-)?

Ha uns dias atras falavas em metamorfose ...

o Obscuro disse...

A mudança de pele é o mais simples, quando não se tem uma personalidade colada ao rosto.

Mais interessante ainda é quando já ninguém sabe distinguir qual é a sua máscara.O ecos dessa confusão, ainda me estão a ajudar. Parece que as coisas estõ no bom caminho...Somos,na realidade, uma espécie com um comportamento muito complexo.

Acredite que não existe em mim maldade, a ternura é o sentimento que cultivo. Aquele que me faz olhar pra dentro dos outros e reconhecer-me, embora diverso, fraternal e amoroso.

Um abraço,
Um sorriso:)
Muita paz

Ana Margarida Esteves disse...

Eu sei que não há em ti maldade, mas sim ternura, e muita:-)!

Eu estava a brincar. Tento ser brincalhona com ternura.

O meu maior esforço é descobrir as minhas máscaras e livrar-me delas. Ao menos tu tens a coragem e a humildade de te apresentares como o obscuro, condição que todos nós partilhamos.

Se não te importas, uso as tuas palavras para te enviar

Um abraço,
Um sorriso:)
Muita paz

Manuelinho disse...

Obrigado, amigos, é mesmo desta poesia que eu gosto ! E tu, ó obscuro, escusas de me chamar invejoso, porque eu deixo as miúdas todas pra ti !... Eu cá só gosto é de contemplar lesmas !

o ainda obscuro disse...

Levanto o meu copo e saúdo a isso!
Manuelinho, eu partilho contigo o gosto pela contemplção de bichos "rápidos". Faz-me lembrar um texto que li (já não me lembro onde) mas lembro-me do final, terminava asssim: "... oh caracol!, como chegaste a meus pés caracol..." Também um bicho veloz.

Um brinde!

o obscuro disse...

Poraue não somos insensíveis a este sol, hoje acordei com esta frase na boca (acho que não foi ressaca)

Há qualquer coisa no ar
Que amanheceu primavera...


Muita luz

Miúda feia disse...

Ó Manuelinho, andas por cá há quatrocentos e vinte nove anos "só a contemplar lesmas" ? E deixas as miúdas todas para os outros ? ! Quão generoso és ! Mas quando vou ao Alentejo vejo que andas sempre rodeado de miúdas giras... Como é que explicas isto ?

Manuelinho disse...

Não são miúdas, são lesmas, transfiguradas pela tua visão pura, ó miúda, que por acaso nem és nada feia, antes pelo contrário ! Quando vieres ao Alentejo, diz qualquer coisa, que eu convido-te pra irmos à missa à tasca do Tizé...

miúda feia disse...

Combinado Manuelinho ! Vamos à missa à tasca do Tizé... vai ser giro sair de lá c'os copos... sabes bem que esse líquido me turva... fico logo tonta !

Anónimo disse...

só carências