O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


segunda-feira, 28 de abril de 2008

Quem temos medo de desiludir?

Gostaria de saber se alguns de vocês sentem o mesmo que eu - Que se sentem melhor quando estão a caminho de algum estado de ser do que quando o atingem. No meu caso, tenho um medo tremendo de ser definida, enclausurada em papéis sociais, e definhar pela limitação do Ser que estes acarretam. Quando atinjo algum objectivo intelectual, profissional ou social, sinto a necessidade de "desfazer" o que fiz e começar uma nova "viagem" com vista a tornar-me noutra coisa qualquer. Ser uma eterna buscadora, e no movimento constante ter as possibilidades sempre abertas, a possibilidade de comunhão com o Infinito ao alcance dos meus sentidos, do meu sentir e do meu intelecto.

"Quero ser para sempre estudante
e agarrar a ilusão de um instante ..."

Diz aquela canção que cantava, primeiro no coro da escola primária, e depois na Tuna da universidade, da qual fazia parte.

E incrível que a palavra estudante rima com renunciante ... Olho com admiração e uma certa inveja as figuras quase sobrenaturais dos "sadus" Indianos ... As tranças precocemente brancas descendo pelas costas abaixo, as peles curtidas pelo sol, os corpos magros e incrivelmente flexíveis, cobertos apenas por um pano em volta do sexo, a errância constante ... Estes homens são mais ricos do que alguma vez foram os mais poderosos marajás, pois não têm nada que possam chamar seu, e por isso possuem não só toda a India, mas também todo o Universo.

Algum de vocês foi à India e teve algum encontro com um "sadu"?

Durante a minha infância fervorosamente católica, à revelia do agnosticismo dos meus pais (sim, acreditem, quase todas as "meninas más" foram fervorosamente católicas na infância;-) ), alimentei o desejo de ser freira. Impressionava-me a limpidez e a luminosidade dos rostos das Irmãs Doroteias da minha paróquia, a simplicidade das suas vestes, as narrações das suas aventuras em África, a liberdade que elas viviam por não terem de entrar no consumismo desenfreado da indústria da "beleza", da "sedução" e do "status", o de estarem livres dos aspectos mais limitadores dos namoros e dos casamentos, e por isso estarem de coração aberto para todos, especialmente os mais transviados ... E por terem Deus como amante e esposo ...

Impressionava-me, e ainda me impressiona a beleza nobre dos hábitos das Carmelitas Descalças, longos veus negros que, na minha infância de maria-rapaz forçada, obrigada pela minha mãe a ter os cabelos sempre curtos, representavam a longa cabeleira e a feminilidade que não me era permitido assumir ...

Mais tarde, já crescida e muito crítica da hierarquia e do dogma católicos, herética em botão, lembro-me de me sentir transportada a um Absoluto quando visitei o claustro das Carmelitas em Bruges, na Bélgica, e de as ter ouvido cantar na hora do "Angelus", os raios de sol entrando pelas janelas altas e se reflectindo no chão como num filme de Kieslowski (ahhhhh, saudades da Europa ...) ...

Durante vários anos alimentei o desejo de fazer parte de uma ordem de renunciadoras. Os meus pais diziam "não te andamos a educar para isso. Para nunca ganhares dinheiro, para não nos dares um genro e netos, para não seres "nada" na vida" ...

A pressão familiar, o crescimento, e o questionar do catolicismo da minha infância fizeram-me abraçar outros sonhos. No entanto, ainda albergo no meu peito, como um bichinho enjaulado a roer as grades da jaula, o desejo de deixar tudo, levar apenas o que cabe numa mochila, e tornar-me uma "sadu" ambulante ... Viver para o silêncio e a contemplação que me permite viver todos os matizes da experiência humana e transcendê-los, correr todos os cantos do mundo e chamá-los "casa" por não ter um lar fixo que me aprisione.

Se ainda não o fiz, se ainda não peguei na mochila e no bastão e me fiz à estrada a caminho do "Oriente mais a Oriente do que o Oriente" é porque tenho medo de desiludir a família, os amigos ... E o meu próprio ego.

Ainda estou naquela espera infantil de que me digam "vai em paz, não nos irás magoar por escolheres ser "nada" na vida, ao seres "nada" irás realizar um potencial muito maior do que aquele que esperamos ver-te realizar na tua profissão. Não temos mais expectativas nem apego. Apenas Amor."

E vocês, do que têm medo?

11 comentários:

fugitivo disse...

"E que é o medo ? É o Deus anterior aos Deuses... a última Força misteriosa...
Para fugir à sua sombra, Jeová criou a luz" - Teixeira de Pascoaes, "Verbo Escuro".

Paulo Borges disse...

O medo é sempre medo, seja de assumir papéis sociais ou de os não ter, de ser alguém ou de não ser ninguém... Penso que o critério decisivo nas nossas opções deve ser o de vermos o que nelas, ou na sua ausência, e em cada situação concreta, pode ser mais benéfico para todos os seres e para todo o universo. Aí estará sempre incluído o nosso maior e melhor interesse.
Pode-se aliás ter a aparência de ser alguém, bem limitado pela sua função social, e interiormente ser-se plenamente livre. Pode-se estar no mundo, e nele contribuir para a sua transformação, sem que a ele pertençamos, como o disse Cristo. E pode-se ter a aparência de vagabundo errante, livre de tudo, quando na verdade se está bem apegado à própria errância, à aversão a assumir responsabilidades e à própria ideia de se ser livre de tudo...
Na Índia e no Nepal só vi os "sadhus" que merecia... para turista ver... a pedir dinheiro pelas fotografias...
E do que mais tenho medo é de o não ter. Na verdade creio ser essa a raiz última de todos os medos: o temor da nossa natureza incondicionada e indómita, que nunca conheceu medo algum nem a sua fuga para a frente, a esperança.
Somos nós mesmos quem tememos desiludir. O resto, creio, são desculpas. Mais ou menos óbvias, mas no fundo sempre desculpas para não nos desiludirmos, seja da ilusão ou da desilusão.

Isabel Santiago disse...

Olá Ana Margarida,

todos temos medos. O que sentes é universal e natural. Somos todos muito mais parecidos do que aquilo que se possa pensar e sentir. Quando te li, li-me também a mim e a todos os que conheço.Mas para além do medo há a alegria que é uma veste luminosa sobre o medo. Um dia destes quando chegares a Portugal e vires a luz que aqui raia e rasga, o medo passa. E viverás dias sem medo! Um sorriso...

Sendeira nem beira disse...

"Sendeiros sem glória do velho Hússar."

Hússar, o que é ter glória?

Maria Ana Silva disse...

O meu corpo não tem medo do que não existe concretamente. Sentir medo do que não é provado pelo corpo vem de pensar.
Fujo de pensar-me mas não é com medo... é talvez com saudades de sentir-me...de ser-me Deus.

Tamborim disse...

Medos de Tamborim:

- A finitude - "não quero luxo, não quero lixo, meu sonho é ser imortal".
- Nunca conseguir ser nómada, residir na mesma cidade por toda a existência...
- Nunca conseguir saber se Deus existe.
- A doença.
- A ausência de exaltação.

Vá la que há bons prazeres...mas para isso temos de abrir outro capítulo:))

JoanaRSSousa disse...

MEDO! do escuro sem luz...

Anónimo disse...

Eu tenho é medo de não ter tusa para tanta musa ! Dantes era mais de não haver musa para tanta tusa !

Já disse...

Quem faz a pergunta é o medo.

Um Anónino Qualquer disse...

E quem te disse que as musas são todas para ti?
Que tal partilhares? Sabes o que isso é?

conceição disse...

um mestre tibetano disse:"se virmos algo assustador, como um fantasma ou uma pessoa que vai disparar sobre nós, pensamos: "Vai-me matar!" e ficamos cheios de medo. Contudo, apesar destes acontecimentos parecerem estar a ocorrer "ali", eles passam-se de facto "aqui", no interior; eles são fabricados pela nossa mente".