O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 25 de junho de 2008

As tuas palavras

Tu disseste: todos os gestos de um homem visam a humanidade. O que existe não existe para si mesmo, mas para outra existência que lhe é superior em qualidade. Eis porque os corpos materiais são transitórios e passageiros. O mineral, por exemplo, existe para o vegetal; o vegetal para o animal, e o animal, tornando-se humano, existe para o espiritual que se torna divino.[1]

[1] Cf., Teixeira de Pascoaes, Os Poetas Lusíadas, Cap. I, Lx., Assírio &Alvim, p. 43

A obra de Karin Somers e Pascoaes

Levei o teu texto gravado na memória onde se guarda a Origem, o Princípio e a Manifestação. Vi-o nesta composição de karin Somers e nesta posição. Nesta transformação da saudade em múltiplas metamorfoses da inocência e no elogio do devir. Nas metamorfoses do que escreveste, no desdobramento das tuas visões em outras aparições. Neste ser que é triste e por um triz. Neste ser que é Pascoaes, também ele ser que é passagem para todos os seres e que é desde vivo máscara crepuscular. Neste ser que nos toca como uma vibração, como uma manifestação derradeira e primordial que nos impõe o calamento e a elevação. Olhando este peregrino de passagem, como o são todas as obras de arte, por Amarante e pelo mundo, eu digo, olhando a obra e ouvindo o estrondo do Calamento que caiu das duplas mãos da Gracinda e das tuas: o anfíbio existe para o pássaro, o pássaro para o anjo, a pedra para a pluma, o que aterra para o que se enleva, o que se enterra para o que se desterra, o luto para o azul, o pousado para o ousado, o conhecido para o desconhecido, a humanidade para a pomba. Nesta obra, tu vieste, como a pomba, sobre nós. Anunciar que vives como um peregrino e uma visita em todas as paragens da morte, da altura e da beleza. Das paragens que são passagens e das passagens que são portas da Saudade.

2 comentários:

Triz disse...

Foi por um "triz" que vos encontrei e gostei...

Isabel Santiago disse...

Então volte mais vezes...também foi por um "triz" que a/o encontrei mas retribuo com um sorriso e um sorriso feliz por ter percebido que aqui há poucas portas e janelas. Entra sempre e é acolhido nem que seja por um triz, mas ele existe sempre.