O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


terça-feira, 26 de agosto de 2008

A Apaziguadora


Milenares as noites baixam sobre os dias
Os seus ombros nus
Cobertos pelo brilho finíssimo da lua;
O arco das suas costas reflecte
O olhar branco da luz,
Arco-íris do sonho;
As suas asas, gastas de poeira estelar,
São o que de mais belo o universo viu.

Por isso, ó noite única, sempre antiga e nova,
Única e plural,
No universo plural e único!
Ó noite, colo de todas as preces,
Vem sentar-te junto da minha fogueira!
Vem aquecer as tuas asas húmidas de milhares de invernos;
Frias de gelos milenares,
Gastas de atravessar montanhas e ventos.
Vem, ó noite! junta-te ao fogo da minha imaginação e apaga
A febre dos meus olhos, derramando neles os colírios das águas
Que trouxeste da montanha.

Por isso, carinhosa enfermeira do Além,
Cuidadora dos aflitos; mãe dolorosa dos simples;
Mátria de seios escuros, complementar ao mamilo do Sol que tudo deixa ver,
Até a cegueira.
Tu que "que tira (s) mundo ao mundo",
Ó apaziguadora, minha irmã que abres uma estrada de ausência
Onde também eu escureço e esbato os contornos da existência
Tu que me visitas, ritual e inevitavelmente;
Tu que atiras para dentro dos meus sonhos
Toalhas frescas que me tiram a febre do rosto...
E te afastas silenciosa como apareceste,
Ó guardadora da aurora que te guardas dentro de mim
E afagas os meus cansaços;
E trazes nos braços pulseiras de estrelas e pó lunar
Para guardar no frasco do veneno que não mata e adormece...
E fazes desaparecer a ânsia dos que anseiam;
Tu que fazes com que a espada brilhante seja sombra
Imagem esbatida onde repousas a cabeça e te coroas
Para todo o sempre rainha dos desolados, peito manso dos desditosos;
Dor sorvida do peito dos poetas.
Também por ti me desfolho
E atiro em todas as direcções o meu ser perdido em ti.

Milenares, os teus gestos pausados,
As tuas lágrimas purificadas,
A tua longa cabeleira negra
Debruada de miríades de luzes;
Sublime o teu perdão,
Serena a tua face límpida;
Por isso te entrego o lume das palavras
Para que o poema te finja
E te coroe, Mãe
Da minha inquietação atenta.

Milenares as noites em que te fundes numa só
Estreita e pálida mão que refrescas os cabelos
Com o orvalho da tua concha de alimento de nada
E apagas a luz sem a ferir, suavemente
Como um choro lento de mulher, um veio de água que corre para dentro
Da alma sedenta dos homens que morrem
E levam no teu olhar o grande consolo da eterna suavidade.

5 comentários:

Anita Silva disse...

os "beijos merecidos da Verdade"... só esses a Mãe em nós nos sabe dar... receba quem seja pobre... pois só os que se sentem pobres de espírito abrem as mãos a pedir. Tornando-se reis com ela.

Anita Silva disse...

só na funda noite o sol brilha.

platero disse...

Maria

grande beijinho para o que tu és

Luiza Dunas disse...

Ah, Saudades,

Que bela nocturnidade a tua.

Anita Silva disse...

Não te cheguei a dizer Saudades, esta foto parece um misto entre realidade e ficção... ou seja, é íntegra-inteira.