O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sexta-feira, 26 de setembro de 2008

CRIME, disse ele ...

É melhor o discernimento deturpado do condenado do que o discerninmento esclarecido do observador. O condenado acaba por chegar à sua inocência, mas o observador nem sequer tem consciência da sua culpa. Por um crime expiado na prisão são impensadamente cometidos dez mil por aqueles que condenam. É uma coisa que não tem princípio nem fim. Estão todos implicados, mesmo os mais santos dos santos. O crime começa em Deus. Terminará no homem, quando ele redescobrir Deus. O crime está em toda a parte, rm todas as fibras e raízes do nosso ser. Cada minuto do dia soma novos crimes ao calendário, tanto os que são detectados e punidos como os que não o são. O criminoso persegue o criminoso. O juiz condena o julgador, o inocente tortura o inocente. Em toda a parte, em todas as famílias, m todas as tribos, em todas as grandes comunidades - crimes, crimes, crimes. Em comparação, a guerra é limpa. Em comparação, o carrasco é uma doce pomba. Em comparação, Átila, Tamerião, Gengis Khan são automatos temerarious. O sau pai, a sua querida mãe, a sua terna irmã: sabe que horrendous crimes acobertam no peito? É capaz de aproximar o espelho da iniquidade quando ela está perto? Já olhou para o labirinto do seu desprezível coração? Alguma vez invejou ao rufião a sua franqueza? O estado do crime começa pelo conhecimento de si próprio. Tudo o que despreza, tudo o que detesta, tudo o que rejeita, tudo o que condena e procura converter pelo castigo nasce de si. A fonte disso ee Deus, que você coloca for a, acima e além. O crime é identificação, primeiro com Deus e depois com a própria imagem. O crime é tudo quanto está for a do baralho e é invejado, cobiçado, ansiosamente desejado. O crime faz cintilar um milhão de facas brilhantes a cada minuto do dia, e à noite também, quando a vigília dá lugar ao sonho. O crime é um oleado tão resistente, tão imenso, estendido de infinidade a infinidade! Onde estão os monstrous que não conhecem o crime? Que reinos habitam? Que os impede de apagar o universo?

Henry Miller, O Pesadelo de Ar Condicionado, Livros do Brasil, pp. 80-1

2 comentários:

Anita Silva disse...

esta vida é uma sequência de horas assassinadas à nascença...

Anónimo disse...

Parabéns!...Um abraço!