O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 29 de outubro de 2008

INSTRUÇÕES PRIMÁRIAS



SMALL IS BEAUTIFUL

O que é pequenino é bonito: uma criança; um cachorrito; um gatito bebé; um pequeno quintal cultivado com sentido estético; um teatrinho de Bairro; um cavaquinho…
A dimensão dispersa a qualidade dos sentidos. O cheiro de um bom café, do fumo de um charuto de elevada qualidade – devem ser apercebidos de maneira mais intensa, concentrada, por um indivíduo de 50 quilos do que por um latagão de 150…
Teoria? Seja – igual a tantas outras.
O paradigma em ruptura, o estilo de vida que esboroa a todo o instante bem pode ser classificado de, ocorre-me agora, Modelo Limousine. Economia Limousine. Actividade financeira Limousine; vida cultural Limousine; compra de casa Limousine; compras domésticas diárias Limousine. É tudo à grande, minha gente.
Quando eu era puto, vai lá uma eternidade, para se viajar entre o Almadafe (meu fojo) e a Casa-Branca (freguesia) a 5 Kms de estrada macadame – era de carroça, bicicleta, ou mais frequentemente a pé. Os casamentos, por exemplo, eram feitos em carros de parelhas engalanados – tantos quantos os suficientes para transportarem as dezenas de convidados até à Igreja da Aldeia, onde se realizava a cerimónia. O casamento da prima Joana Carapinha com o sapateiro António Varela – porque os pais fossem já gente de alguns teres, mas sobretudo possuídos avant-la- lettre do que acabamos de identificar como sindroma Limousine, retiram-se de cuidados e contratam, para transportar os convidados do grandioso casamento – em substituição dos tradicionais carros de muares – a camioneta da carreira. Para os noivos, alugam o Táxi do Delfino

Quando as nossas Universidades estabelecem protocolos com as grandes Universidades americanas; quando a nossa maltrapilha economia se abre aos grandes potentados mundiais em detrimento de mercados da nossa dimensão, estamos irremediavelmente mergulhados no SL (já sabe, sindroma Limousine – LS, se quiser, à inglesa)
O excelentíssimo senhor presidente da Adega Cooperativa, quando toda a atmosfera exala um saudável cheiro a vinho novo, remata o seu discurso com “ e a seguir quero convidar V.Exas para um Coffee Brake a ter lugar …. Presidente, um TINTO BRAKE, caramba, qual coffee brake qual caneco, e que V.Exas, Presidente…

15 mil famílias, dizem as estatísticas, com a corda na garganta para pagar o T3 em Caracavelos, o T2 no Resort de Tróia, ou o T1 no condomínio não sei quantos da Quinta da Marinha. É evidente que todos temos direito ao conforto, à privacidade, a desfrutar de paisagens frescas e bucólicas de abetos e de bétulas, com passarinhos a cantar por tudo quanto é sítio. Todos temos direito ao S. Carlos e ao Gambrinos, às camisas de seda e às gravatas de 200 €, às férias no Brasil ou nas Maldivas. A tirar retratos às crianças chapinhando de maneira grácil nas águas do TasMahl ou contemplando as neves eternas do Kilimanjaro….
Do meu tempo de arroubos literários, lembro-me de ter produzido a minha versão de “Os Direitos do Homem”, com uma alínea que prescreve o direito universal a um prato:
Toda a gente nasce com direito a um prato
- note-se, vazio
Ninguém nasce com direito a um prato cheio
Pretender enchê-lo diariamente de iguarias em vez de alimentos, também isso é SL
E toda a nossa vida, caros conterrâneos, tem sido, quando não um exibir de Limousine, pelo menos um permanente aluguer do Táxi do Delfino

Deixo-Vos com um que já vai apetecendo caloroso abraço

12 comentários:

platero disse...

só dizer que arrisquei "postagem" (é assim que se diz?)da minha visão da crise- por simpatia com o texto anterior.

Além do mais, não deixou de me agradar a "descoberta" de Síndrome Limousine!!!!!

abraços

Isabel Santiago disse...

Mas hoje Platero, um aluno veio dizer-me que não tinha justificação de faltas para entregar, tinha as mãos vazias, os olhos cheios de lágrimas e tinha fome. Fome Platero! E eu, que sei que posso entregar-lhe o silêncio que me corrói, tenho a alma cheia de fome e um síndrome chamado vergonha por tudo o que não consigo sequer continuar a dizer...
Sinto vergonha pelos que a não têm...

Paulo Borges disse...

Aplaudo de pé, Platero, o magnífico post!

Delfino disse...

Ó pá, queres-me estragar o negócio ou quê!? Se não gostas de andar de carro, vai a pé mas não chateies!

Sem Abrigo disse...

Tomara dispor dum pouquito para partilhar com os outros... com ou sem prato!
O resto (coisas) não interessa, só dá trabalho e preocupações.

Outro Delfino Táxista disse...

Com esta conversa toda, Platero, compreendo agora a Solicitadora de Execução, designada nos autos supra indicados, nos termos do disposto no Art. tal, nº.3 do CPC... e por aí adiante ... que me apareceu lá em casa para "levar" os meus bens todos!
Ah pois, lá se vai o negócio... Já ninguém dá o nó de táxi... agora até é fino ir a pé em nome do ambiente... e assim.

Anónimo disse...

Prefiro putas grandes

Anónimo disse...

adere ao MIL, pá! adere ao MIL. é tudo muito mais vasto e tens muito mais território...

platero disse...

acabam é por me baralhar de jeito que espero seja reversível.
de contrário, estou mas é tramado com vocês

aos gozões da fita: não querem vir ajudar-me a cultivar o batatal?

Anónimo disse...

Só se for de limousine.

Administrador de Insolvência disse...

Limousine?! Isso querias tu...
Com esta crise?! ... Oh pá, já foi tudo arrolado e apreendido a favor da Massa Insolvente... lá está nos termos do art.36, alínea w) e art.150, ambos do CIRE, ou chamem-lhe o que quiserem... Agora, só a pé que faz muito bem à saúde!




Este ano, ouvi dizer que as batatas iam dar feijões, é verdade?!

Anónimo disse...

pois brinquemos com a crise...