O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


segunda-feira, 30 de março de 2009

do físico ao metafísico

na terra sou semente encoberto
no Outono triste da humanidade
espero o certo momento da verdade
para fugir do profundo deserto

que é esta vida de carne e osso
mil passos perdidos no tempo cheio
quando me liberto e quando posso
nascer como flor e sair deste meio

para obter o meu ultimo perfume
para ser um esplendoroso lume
soltando o pólen do meu pensamento

lá sobre tudo e lá para dentro
das almas amadas, doce costume
ser desejado e um desejo no vento.

Madragoa 29.III.09

4 comentários:

Paulo Borges disse...

Ouço este soneto atravessar a escuridão branca de Lisboa.

saudadesdofuturo disse...

Também ouço esta sua voz de "encoberto" pelo espaço. Dentro e fora desse espaço soa.

Luiza Dunas disse...

A semente encoberta, no outono, inteligente, fica bem sossegada a manter o seu calor e a assegurar a realização do seu potencial para tempos mais favoráveis, que são certos. No Inverno, ela sabe, o momento da sua verdade está quase a chegar, pois claro, por isso fica bem quieta, cada vez mais ardente e sapiente no ventre.


Belíssima a cadência dos teus versos, DH.

Mª. da Luz disse...

Dirk, e se os versos fossem acompanhados duma fotografia, tirada desse ponto da cidade, no momento em que os escrevias? Consegues descrever a paisagem que te inspirou? E já agora, os cheiros e as cores desta Primavera na Madragoa...