O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sábado, 28 de março de 2009

Klompen / Socos

Klompen/ Socos: tamancos, chinelas de pau, tb. acto de toque fisico, agressivo, da /tua, minha/ mao na / minha, tua/ face

Klompen


Gostava de te dizer como são os meus passos que me afastam de ti.
Como não vivo para ti, nem escrevo para ti.

Como não penso no meu amor, nem te amo em pensamento.

Como não te vejo nos lugares onde nunca estivemos juntos.

Como tu não me pisas quando me obrigas a seguir os teus passos,
ou como não me calcas quando descalças os pés às leonores
que bebem da tua fonte.

Como caminho firme e confiante pelos prados holandeses, entre as vacas e a lama,
e me afasto cada vez mais de ti.

Como os meus passos se afastam dos teus passos, correndo para longe, longe,
esperando que o mundo seja realmente redondo, e não plano,
e possa, um dia, chegar às tuas costas, tapar os teus olhos e dizer-te
mijn thuisland is niet meer mijn taal.


Socos


Ik wilde je zeggen hoe mijn stappen zijn die mij van je verwijderen.

Hoe ik niet leef voor jou, niet eens schrijf voor jou.

Hoe ik niet denk aan mijn liefde en je evenmin bemin in gedachten.

Hoe ik je niet zie op de plaatsen waar we nooit samen waren.

Hoe je me niet vertrapt wanneer je me dwingt je stappen te volgen,
of hoe je me niet plet wanneer je de schoenen uittrekt
van de leonoors die drinken uit jouw bron.

Hoe ik ferm en vol vertrouwen door de Nederlandse weiden loop,
tussen koeien en modder, en me steeds verder van je verwijder.

Hoe mijn stappen zich verwijderen van jouw stappen, rennend naar de verre verten,in de hoop dat de wereld werkelijk rond is, en niet plat,
en dat ik op een dag achter je sta, mijn handen op je ogen leg en zeg
a minha pátria já não é a minha língua.


Joana Serrado, Emparedada/ Uit de Muur, Uitgeverij de Passage, 2009, p. 32, 33

9 comentários:

Anónimo disse...

dirigida a...

Joana Serrado disse...

mim propia, especialmente!

YMS disse...

Na verdade, parece um poema-boomerang.

Tamborim disse...

Gostei imensamente.

Sereia* disse...

Que bonito, Joana!

Paulo Borges disse...

Saúdo, Joana, ser agente, mesmo sem o querer, deste reeencontro de Portugal com os Países-Baixos, que brilhou na nossa Idade Média. Saúdo também a sua (vontade de) ruptura com a pátria e a tradição poética portuguesa, inovadora no marasmo literário e geral em que nos encontramos.
Parece-me apenas, como digo a respeito das relações de Pessoa com Pascoaes, que ruptura (sobretudo vontade de ruptura) é ainda fidelidade e vínculo a isso com o qual se pretende romper: diria até, cumprimento disso mesmo. Na expectativa de ler mais, creio que estamos perante uma inovação, mas pergunto se será deveras um novo início.

Desejo e espero que sim.

Saudações.

Anónimo disse...

Isso, desapaixonemo-nos, das mulheres, da pátria, da poesia, de tudo!

Joana Serrado disse...

Fico feliz com as vossas reaccoes.
Isso de poema-boomerang, acho o maximo! (Comeco a pensar se a melhor definicao de um poema nao sera essa de ser boomerang). Obigada por serem minhas "cobaias".
Um beijinho holandes, joana

Anónimo disse...

Que interessante, um blog bilingue!